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A sopa

Luis Fernando Verissimo

- Orlando, me explica uma coisa.

Orlando parou de tomar a sopa, com a colher a meio caminho da boca. Era raro a Dalinda dizer qualquer coisa na mesa do jantar. Nos últimos anos, a conversa dos dois durante as refeições tinha se limitado ao básico. “Passa o sal” e pouco mais. E, de repente, a Dalinda estava pedindo uma explicação.

- O quê?

- Por que você toma sopa desse jeito?

- Que jeito?

- Assim.

Ela mostrou com um gesto como ele fazia. Pegava a sopa pelo lado mais distante da colher. Contra a borda mais distante do prato.

- Eu sempre tomei sopa assim.

- Por quê?

Orlando hesitou. O que era aquilo? Só curiosidade da mulher? Ou o prenúncio de alguma outra coisa? Uma trovoada longínqua, sinal de tormenta se aproximando? Foi precavido. Perguntou:

- Por que você quer saber?

- Pra saber.

- E só agora? Trinta anos de casados, e só agora você notou como eu tomo sopa?

- Trinta e dois.

- O quê?

- Anos de casados.

- Que história é essa, Dalinda?

- História nenhuma. Eu só quero saber por que...

- Não. Não é só isso. Você está querendo me dizer alguma coisa. Você está preparando o terreno pra não sei o quê. Quer me contar alguma coisa, é isso? Não sabe como começar e vem com essa história de sopa. E sobre o Heitor, é?

- Que Heitor?!

- O Heitor da farmácia. Pensa que eu não sei que aquela injeção não precisava ser na nádega? Que ele é que inventou que precisava ser na nádega? Depois eu me informei. Não precisava.

- Orlando! Que absurdo! Eu nunca mais vi o seu Heitor, depois da injeção.

- Sei não, sei não...

- Nem me lembro da cara dele.

- Sei não, sei não...

- Esta bom, esquece a sopa. Eu só estava querendo puxar conversa. A gente não conversa mais.

- Dalinda...

- Termina logo essa sopa, Orlando.

flor

Mais tarde, na cama.

- Dalindinha...

- O que é?

- Foi a minha mãe que me ensinou a tomar sopa desse jeito. Assim o lado da colher que a gente põe na boca fica frio, porque a sopa quente entrou pelo outro lado.

- Sei.

- Sobre o que mais você quer conversar?

- Eu quero dormir.

- Você ficou brava comigo?

- Não, Orlando. Vamos dormir.

- Dá um beijinho?

- Amanhã, Orlando.

Mas Dalinda não dormiu. Pela primeira vez desde a injeção, pensou no seu Heitor da farmácia. Nos seus cabelos grisalhos, no calor da sua mão moldando a carne da nádega para receber a agulha, na sua voz de locutor dizendo “Não vai doer’ Se não fosse o Orlando lembrá-la, ela teria esquecido do seu Heitor. E agora não conseguia dormir pensando nos seus cabelos grisalhos, na sua voz de locutor e na sua mão quente demorando para moldar a came da nádega.


Domingo, 07 de março de 2010.



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